Simples Assim

Há algumas semanas, vi uma edição da revista Gula que possuía a foto de uma coxinha de boteco na capa. A matéria principal da revista abordava a busca incansável pela coxinha perfeita.

Não li a matéria, mas lembrei da coxinha que a minha avó, que ainda é viva, prepara. Para mim, não dá para ser melhor do que aquela.

Lembrei também das conversas de mesa de bar, onde entre uma cerveja e outra divagávamos sobre a técnica ideal para se degustar uma coxinha. Se começando pela parte fina, ou pelo recheio. Bem, eu começo sempre pela parte fina, porque particularmente gosto de deixar o melhor para o final. Sentir o retrogosto* do frango com Catupiry por mais tempo.

Salgados de boteco à parte, sou um minimalista na essência da palavra. Um aventureiro aquariano nato, e como tal, acredito que certos momentos precisam de intensidade.

Nesse contexto, leia intensidade como aquela sensação sem nome que diferencia uma viagem para o Pantanal, de uma visita ao zoológico. Há pessoas que preferem observar Piranhas confortavelmente através de um aquário, e pessoas que preferem viver essa experiência de dentro de um barco no interior do Mato Grosso. Eu sou dos que preferem ver de dentro do rio, mergulhando, e se for mordido, melhor ainda. Intensidade, simples assim.

Em minha opinião, muitos restaurantes modernos abusam de adjetivos mega sofisticados para nomear pratos simples, cobrando caro por cada bocado, mas esquecem que a verdadeira satisfação do cliente envolve o serviço, o atendimento, o clima, o ambiente. Nada pode ser ruim, e tudo – ou pelo menos uma boa parte – precisa ser intenso.

Mais de uma vez me encontrei lendo livros do Anthony Bourdain, ou discutindo sobre futebol com um desconhecido no Amarelinho, enquanto saboreava um delicioso Frango a Passarinho. Eu jamais faria isso degustando um “Frango crocante cortado nas entre – juntas, frito por imersão, coberto por alho granulado dourado, ao aroma de limão Tahiti da estação e acompanhado de fatias tenras de pão francês fresco”. É muito caminhão para pouca areia.

Sujinho, Ibotirama, Amarelinho, o refinado Brasil a Gosto. Sensacionais e Intensos.

Uma das refeições mais memoráveis da qual tenho lembrança, aconteceu há alguns anos atrás, em Caraíva no sul da Bahia. Cozinhamos sem energia elétrica e grelhamos com um aro de ventilador industrial a melhor ceia de ano novo da minha vida. Não tinha luxo, tinha emoção.

Talvez a mesma emoção que faça da coxinha da minha avó, a melhor do mundo.

* Retrogosto = Aftertaste. A sensação de sabor que permanece na boca após beber ou comer algo.

Até a próxima!
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Categorias: Falando de cozinha

Autor:Tiago Teixeira (@Ti_Teixeira)

Um ser humano underground e aquariano convicto. Amante das artes culinárias, da rua Augusta, dos esportes violentos e dos cães sem raça definida. Nas horas vagas, é dublê de mãos para cenas perigosas. Formado em Gastronomia pelo SENAC, já trabalhou nos melhores restaurantes de São Paulo. De garçom a chef, sem frescura.

8 Comentários em “Simples Assim”

  1. 08/05/2013 às 10:54 #

    Ótimos textos cara. Voltarei mais vezes!

  2. 08/08/2011 às 15:36 #

    Muito legal o post, Tiago! E é bem isso, as coisas mais saborosas surgem das coisas simples! E viva a coxinha 🙂

  3. Day Novelli
    30/07/2011 às 10:25 #

    Oi Ti!!! Quanto tempo!!!! Já estava com saudades destes saborosos posts, viu? Que bom que voltou a escrever e voltou em grande estilo!!!! Adorei!!! Mas você bem que podia colocar a receita da coxinha da sua avó. Fiquei curiosa. Você falou tão bem que fiquei com água na boca!!! Saudades de você e da Dani!!! Vamos combinar um chopp com coxinhas??? hehheheh…Bjos, bjos, bjos!!! 🙂

  4. Van Teixeira
    29/07/2011 às 11:49 #

    ADOREI O POST… ESSE É MEU IRMÃO!!!!
    Cara, tem coisas que não restaurante ou chefe de cozinha que consiga bater o sabor, como por exemplo: a coxinha da nossa avó!
    Pode mudar o nome, inovar na receita, na apresentação do prato, que não tem jeito. O carinho e amor de vó colocados alí, naquela preparação, não tem restaurante que o faça!
    Deu água na boca este post… que delícia!
    Parabéns Brodis! 🙂

  5. 28/07/2011 às 18:29 #

    nego, mandou muito!
    gosto da irreverência que, do seu sangue, foi pro texto. e da criatividade, lógico, de divagar sobre uma coxinha. além disso, li outros textos e não poderia definir pessoa melhor pra entender sobre culinária. maluco! hahaha.
    no que se refere à minha especialidade, embora acho que você esteja no melhor caminho,acho digno conversarmos em mesa de bar. acompanhados de coxinhas, claro. e dessa amizade, claro. 😉

  6. 28/07/2011 às 16:44 #

    Tiago, adorei esse post. Muito bem escrito….vc conseguir falar da ” coxinha ” de uma forma super poética. Poxa me deu vontade de saborear a coxinha que sua vózinha faz…..Parabéns!!! Adorei

  7. Cynthia K.
    28/07/2011 às 13:44 #

    Estou com água na boca.. eu amo mto tdo isso… amo mto coxinha… como coxinha em tdos os lugares q vou!!! coxinha me lembra festinha de criança.. doce infância… agora vou sonhar com a coxinha da sua avo q realmente deve ser mto boa… =0)

    Ti continue sempre com esse dom de escrever e cozinhar.. rs..

    a d o r o*

  8. Greice
    28/07/2011 às 13:44 #

    Nossa Thi! Eu vi essa edicao tbm, da agua na boca so de pensar. Muito bom o post! Bjs

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